Nota 2 - Nascer, crescer, reproduzir e morrer

 

Nascer, crescer, reproduzir e morrer

17-Jul-20

 

Iniciarei contando uma palestra que ouvi do grandioso filósofo e professor doutor Clóvis de Barros Filho em um TEDx SP ao vivo em 2016.

"Haverá quem diga que felicidade é você ter o que você quer. Eis aí a primeira dificuldade porque se você quer é porque não tem ainda. Quando você tem, aí você não quer mais. O desejo é sempre por aquilo que falta, por aquilo que nos faz falta. E a energia mobilizada para ir atrás daquilo que queremos sempre encontra na falta a sua grande motivação.

Na escola já aprendemos aquilo que nos faz falta. Na pré-escola a tia Clotilde dizia que a pré-escola é a preparação para o ensino fundamental. Que o fundamental é mais legal, mais bacana e teria mais liberdade, e então nos preparamos e aguardamos durante 3 para finalmente chegarmos ao fundamental.

Então finalmente chegou o dia no ensino fundamental e tínhamos todos os motivos para acreditar que tudo seria lindo e maravilhoso, mas mudou a coordenadora e entrou a tia Marocas e disse: "Olha, os 9 anos do fundamental são para preparar para o ensino médio. No ensino médio sim, é outro prédio, é bem mais legal, não tem que usar uniforme, vc  vai poder escolher entre humanas, exatas e biológicas. Vc já será adulto, vai ser livre e portanto vai ser feliz!"

Eram só mais 9 anos esperando e então chegou o ensino médio. Fomos acreditando nos primeiros dias que finalmente a felicidade tinha chegado, que ia ser fenomenal, que haveria prazer gozo e felicidade.  Mas, puseram um outro coordenador enorme, gigante, chamado Mario Zane que disse: "O ensino médio, vamos deixar de frescurar, é para preparar pro vestibular"

Ficamos mais 3 anos desejando. E as pessoas dizendo "quando acontecer isso, quando acontecer aquilo, quando for pra lá, haverá felicidade"

Passaram-se então 15 anos e finalmente chegamos à faculdade. Os primeiros dias pareciam cumprir com a promessa. Havia semana do calouro, miss-bixete, festa e bebidas. A felicidade finalmente chegou. Mas, dps de 1 semana passando pelos corredores vemos panfletos de estágios e os veteranos falando que se não conseguir um bom estágio você não vai conseguir um bom emprego e vai por tudo a perder.

Com sangue nos olhos e faca na boca conseguimos o estágio. Voltamos para casa eufóricos. A felicidade finalmente chegou! No primeiro dia de estário te tratam de estagiário e você percebe que não é bem assim como disseram que seria ser.

Isso faz lembrar de uma histórinha para exemplificar.

Um belo dia o presidente da empresa reúne o vice-presidente e toda a diretoria para perguntar: "O que eu faço aqui é prazer ou trabalho? Vocês tem 24h para me responder".

O caos se instaura na empresa, aquela correria, telefonemas sem fim, reuniões e mais reuniões. A pergunta junto com o caos desce por toda a hierarquia até que alguém olha para o fundo do corredor e enxerga o estagiário em volta de pilhas e mais pilhas de papéis, um telefone em cada orelha.

- Ei, você! Eu tenho que responder o que o presidente faz é prazer ou trabalho?

O estagiário responde: É lógico que é prazer! Se fosse trabalho seria eu que teria que fazer!

Vc conseguiu o estágio e alguém te diz que se não for efetivado nada valeu ter feito o estágio. Com mais sangue nos olhos e mais facas na boca você finalmente consegue o carimbo da efetivação, tem diploma da faculdade.

Na formatura da faculdade todos estão felizes porque agora finalmente a felicidade chegou. Foram muitos anos, mas agora sim a felicidade chegou!

No primeiro dia de trabalho o chefe olha pra você e diz “A empresa tem 15 níveis, você está G15. G15 vale menos que um estagiário. Para conseguir subir precisa bater metas e conseguir resultados.”

Você questiona o que são metas e o chefe responde que metas são como cenouras. Você pega cenouras e entrega cenouras, pega e entrega cenouras e assim vai conseguindo resultados.

Com isso você vai subindo de níveis. Após 8 anos encontra novamente o mesmo chefe na cafeteria da empresa e finalmente põe pra fora a única curiosidade: "Onde vc enfia tantas cenouras???"

Você continua subindo, subindo e subindo. Começa a ser chamado por letras, letras em inglês porque tudo que é em inglês vale muito. Você é CFO, CEO, COCOU, ICOCOU, CEENFIOU e etc.

Aí percebe que sempre tem alguém acima de você, te humilhando, olhando de cima pra baixo.

Certo dia a empresa te faz uma festa e no dia que isso acontecer você já rodou.

Vão te dar uma plaquinha escrita "Obrigado perseguidor de cenouras" e você já envelhecido será substituído por alguém mais jovem e iludido.

E ainda alguém te dirá: "Quando vc se aposentar será bem legal!"

Você junta seu dinheirinho que restou, compra uma chacará com um laguinho para pescar.

Aos 80 anos, vc está nas últimas, com família chorando em volta.

Pasmem ou não, acreditem mas ainda vai chegar alguém e vai dizer " Nada de tristeza porque o melhor ainda está por vir"

Você fragilizado, sem forças, diz: "Malandro, me enganaram por 80 anos."

E você não percebeu que TALVEZ a vida tinha alguma chance de ser feliz não é quando algo acontecer, mas é JÁ. Sim!!! Agora, neste instante, neste exato momento. Agora, agorinha mesmo.

Ou a felicidade está aqui ou não estará em nenhum outro lugar porque a VIDA está aqui e agora.

Cada instante da vida é mágica, irrecuperável e virginal. Absolutamente inédita e nunca antes vivida. É este momento que temos para fazermos o melhor que pudermos fazer porque depois que passou já foi e nunca mais voltará.

Porque hoje somos melhores que ontem e amanhã seremos melhores que hoje. Temos a oportunidade para fazermos o melhor da vida, o que de melhor já fizemos. Para que tenha graça durante e não depois que acaba. Quando a felicidade começa antes é melhor para a vida. Se tivermos que esperar pelas 18:00 da sexta-feira para ser feliz, sinto muito mas sua vida é muito ruim.

Felicidade é um pequeno instante da vida que você gostaria de repetir. Felicidade é aquele segundinho que não queria que acabasse.”

 

Não precisei chegar aos 80 anos para olhar para trás e perceber que também fui enganado. Cheguei até um pouco menos da metade.

Quase no modo automático segui exatamente como falado na palestra até conseguir meu primeiro emprego com carteira assinada. Mas, após os primeiros anos de empresa começaram a sobrevoar sobre minha cabeça os pensamentos:

-          E agora é isso? Trabalhar para o resto da vida?

-          A vida se resume a só isso?

-          Tenho uma namorada incrível, talvez logo estarei casado, talvez tenha filhos. Mesmo assim a vida é só isso?

-          A vida não pode ser somente isso! A vida precisa ser mais que isso!

-          Não quero chegar aos 90 anos e olhar para trás e ver a porcaria de vida que tive!!!

 

Mesmo com estes pensamentos me rondando continuei pegando e entregando cenouras porque não sabia o que fazer, não sabia como agir para sair do modo automático. O tempo passava fazendo aparecer um buraco ou melhor um vazio no meu peito que não sabia como preenchê-lo ou eliminá-lo.

        Ainda preso a ideia errônea de que felicidade é ter o que você quer, comecei a comprar coisas na tentativa (inútil) de preencher esse vazio. Sentia alívio de 1 ou 2 dias, certas vezes somente por algumas horas e era novamente consumido pelo vazio.

                Aventurei nos esportes radicais onde conseguia momentaneamente me desligar do mundo e dos problemas. Saltei de paraquedas 3 vezes, me joguei no bungee jump, voei de parapente, balão e túnel de vento vertical e fiz tirolesa de 2km saindo de uma montanha de 140m.

                Continuei pegando e entregando cenouras e subindo de níveis na empresa e troquei de empresa para subir mais de níveis, Out-2016.

Como comentei no texto anterior o estresse e cansaço foram me consumindo ao longo dos anos. A saúde só piorava a medida que subia de nível mas continuava pegando e entregando cenouras. Até que um belo dia após uma reunião matinal super tensa com alta cobrança comecei a sentir uma dor intensa e estranha no peito, nunca havia sentido isso antes. Não era bem dor, nem pressão, nem aperto, nem pontada, não sei até hoje descrever o que foi aquilo. Pedi para ir embora e fui direto para o pronto socorro onde passei o resto do dia coletando amostras de sangue para descartar a possibilidade de enfarte ou infarto do coração.

                Felizmente não era infarto, talvez um mal estar gerado pelo estresse da reunião. O médico comentou durante a nossa conversa: “Vc está mto novo ainda para ter esse tipo de sintoma, aconselho a pensar bem o que tem feito com sua vida”. Não foi a primeira vez que escutei essas palavras.

                Voltei para casa e pensei muito nas palavras do médico e decidi que iria sair da empresa quando terminasse o projeto para qual fui contratado, porém, não iria mais pegar e entregar cenouras loucamente como vinha fazendo. Um pouco mais de 6 meses depois completou um ano do início das entregas dos produtos aos clientes sem nenhuma reclamação de falha grave, o time do projeto e todos os envolvidos foram parabenizados pela matriz pela conquista alcançada. Aproveitei este momento para solicitar o meu desligamento da empresa, Fev-2018.

                Certa ou errada a minha decisão?

Até o momento penso que foi certa porque teria infartado de verdade ou algo pior teria acontecido caso tivesse continuado.

Sou grato pelos pais e amigos que tenho porque sem eles estaria internado em alguma clínica de tratamento de saúde mental.

O que me aguarda o futuro? Só o tempo dirá. Só sei que aquele vazio no peito foi embora e espero nunca mais sentir novamente. Com muita certeza quero sentir muito mais vezes a sensação boa que senti semanas atrás que preencheu meu peito enquanto conversava com a dirigente de uma casa espírita aqui no interior. Ela estava contando os meios que a casa ajuda os mais necessitados. Também não sei colocar em palavras aquilo que inflou no peito, uma sensação excelente, um júbilo. Parecia ser o oposto do vazio.

                Sei que o caminho é tortuoso e novos obstáculos aparecerão, mas continuarei persistindo na nova empreitada profissional, nos tratamentos médicos e terapias, também nos estudos e reforma íntima para que o título deste texto mude para “Nascer, crescer, VIVER, reproduzir e morrer”, para quando chegar aos 80 anos olhar para trás e poder dizer “Consegui!”


MMM

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