Nota 3 - Humildade
Humildade
10-Ago-20
"Quem rebaixa a si mesmo, quer ser elevado" - Friedrich Nietzsche
"Na verdade vos digo que, se não fizerdes como meninos, não entrareis
no Reino dos Céus. Todo aquele, pois,que se humilhar e se fizer pequeno como
este menino, esse será o maior no Reino dos Céus. E o que receber em meu nome
um menino como este, a mim é que recebe." - Jesus Cristo
Sábado, 08-Ago-20, um dia atípico para mim, mas recheada de lições e
reflexões.
Pela segunda vez
ajudei na distribuição de cestas básicas para famílias carentes cadastradas na
assistência realizada pelo centro espírita. As famílias cadastradas receberam
as cestas básicas já preparadas e separadas. Devido à pandemia apareceram mais
pessoas e tivemos que "multiplicar os pães" para que todos pudessem
ser ajudados.
Apesar de me sentir
bem ajudando, havia algo que estranhei na primeira vez que ajudei mas desta vez
consegui perceber o que era. Preconceito? Medo? Receio? Timidez? Incômodo?
Essas palavras
sobrevoavam minha cabeça na presença desses homens, mulheres e crianças que
acordaram bem cedo para aguardar na fila. Alguns vieram de longe a pé e
voltaram carregando os produtos em sacolas que estavam pesadas.
Uma sensação diferente
que não conseguia definir. Entretanto, após ficar um tempo tentando entender
esta sensação, notei que sinto a mesma coisa quando me aproximo de crianças,
adolescentes ou pessoas desconhecidas. Não sei como me comportar, não sei sobre
o que conversar, não sei como agir ou reagir. Brota um vazio no cérebro ou que
faltam instruções ou não aprendi ainda o modo operante da convenção social em
situações como estas. Então, acabo ficando sem jeito e calado, enquanto
observava os demais voluntários conversando e interagindo com as pessoas como
se fossem velhos conhecidos, talvez realmente fossem.
Acredito que com o
tempo irei aos poucos encontrar o meu jeito interagir com pessoas
desconhecidas, visto que agora tenho interesse e vontade de aprender a ser mais
sociável.
Como era véspera do
dia dos pais, após o término das entregas tomei o rumo para a casa dos meus
pais. De costume paro na última parada antes da entrada de SP para usar o
banheiro porque nunca se sabe como estará o trânsito. Ao estacionar noto um
senhor descalço sentado a alguns metros da vaga que parei.
Pelo viés já esperava
que o senhor fosse pedir algo, mas isso não aconteceu. Ele permaneceu sentado olhando os carros
passando na rodovia enquanto bebia água. Utilizei o banheiro e fui tomar um
café para espantar a sonolência causada pelo calorzinho gostoso que o sol
fornecia naquela manhã ensolarada, céu azul com poucas nuvens.
Enquanto tomava o café
lembrei do senhor que permanecia no mesmo local ainda observando os carros.
Resolvi comprar um lanche e uma paçoca para ele. Passei pelo caixa e comecei a
pensar como reagiria ao entregar a comida para ele. Falarei um "oi",
entregaria a comida e daria as costas para ir embora? Só entregaria a comida e
pronto? Talvez dissesse "bom dia, comprei algo para vc".
Não sei bem o que
aconteceu na hora que me aproximei do senhor, ainda meio acanhado, uma certa
coragem surgiu inesperadamente suficiente para puxar assunto com aquela pessoa
desconhecida e moradora de rua. De forma natural palavras começaram a sair pela
minha boca e começamos a conversar.
Durante o início da
conversa alguns pensamentos começaram a relampear:
- O que vc está fazendo?
- Tem mais carros estacionando perto, o que essas pessoas vão pensar de
mim?
- E se alguem aparecer de repente e me assaltar?
- Por que estou conversando c um morador de rua?
- E se alguem tirar uma foto e eu virar gozação na internet?
E outros tantos de
"e se..." foram se formando até que mentalmente pus um basta!
"Que se exploda esses "E se" ou o que os outros estão pensando.
Estou gostando de conversar com ele e é isso que importa.
Afugentando os
pensamentos perturbadores, ouvi um pouco da história desse senhor.
O senhor J (para
preservar sua identidade), tinha 56 anos. De origem nordestina, veio para São
Paulo tentar a sorte na vida como muitos. Sua aparência mais envelhecida
desgastada pela vida puxada que teve desde cedo na roça. Exerceu várias
atividades até a última como caseiro de uma chacará localizada no interior. A
chacará passou por alguns donos até o último a transformar em local para
eventos e festas. Havia a casa principal, salão de festas, charretes e 7
cavalos, piscina, campo de futebol de grama e uma horta. Sua rotina era
garantir que a propriedade estivesse sempre em condições de uso porque os donos
poderiam aparecer a qualquer .
Durante 7 anos teve
uma vida estável e boa até que uma concessionária comprou os terrenos para
construção de novas estradas. Os terrenos não tinham escrituras, somente
contratos de gaveta.
Senhor J tinha a opção
de ir morar com os parentes, mas não entendi a decisão dele de preferir tentar
ajeitar a vida indo morar na rua. Tentou por vários dias ser “chapa” ajudando
os caminhoneiros nas rodovias sem muito sucesso e tem coletado latinhas para
vender para obter alguns trocados para sua sobrevivência.
A paciência era sua
maior virtude citada por ele, apesar dos altos e baixos que teve na vida
acreditava que Deus tinha um propósito para cada um e motivos para cada
obstáculo colocado em nossas trilhas da vida.
Paciência de onde
tirou forças para barrar as ideias negativas de tirar a própria vida se
lançando em frente aos carros que passavam na Rodovia Bandeirantes à noite. E
também ao lembrar do sofrimento que explodiria nas pessoas mais próximas, sua
ex-sogra que cuidava do seu filho adolescente, sua ex-esposa por quem a amizade
permaneceu após separação e uma nova companheira que apareceu recentemente em
sua vida.
Conversamos por mais
de meia hora e quase na despedida senhor J pediu uma ajuda financeira para
comprar uma passagem de ônibus pois gostaria de visitar parentes em Osasco e
tentar dar outro rumo em sua vida. De bom grato entreguei uma certa quantia
para a passagem e também para se alimentar.
Seria bem interessante
se o senhor J realmente usasse o dinheiro para fazer o que havia dito, mas
agora isso é por conta exclusiva dele. Espero que ele aproveita esta
oportunidade.
O que eu ganhei
fazendo isso?
Derrubei um dos muros
queme impedia de conversar com estranhos e ainda mais morador de rua. Obtive
lições de humildade e paciência. Amostras de fé em Deus e esperança em dias
melhoras. Exemplo de afeto pelo filho e parentes mesmo estando em condições que
o poderiam fazer nutrir total tristeza, desespero, raiva ou insensatez.
Talvez venhamos a nos
encontrar novamente, espero e desejo que esteja melhor e que encontrou seu
caminho.
MMM
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